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>> RIO DE PAZ ENVIA MENSAGEM ESPECIAL À PMRJ

O diretor do movimento Rio de Paz - que luta pela redução de homicídios no país e, especialmente, no Rio - Antonio Carlos Costa, envia artigo com o objetivo de debater a situação da Polícia Militar, que está novamente na berlinda com o filme "Tropa de Elite 2".

MENSAGEM À POLÍCIA MILITAR
Por Antonio Carlos Costa.

O Tropa de Elite II feriu muita gente dentro da Polícia Militar, que viu sua instituição ser objeto da mais ampla e severa crítica de toda a sua história. Efeito oposto ocorre na sociedade civil do Rio de Janeiro, indignada com a mesma polícia em razão das denúncias gravíssimas feitas pelo filme. Pensei no que falar para os policiais militares.

O Rio de Janeiro é impensável sem vocês. Não consigo imaginar a nossa cidade sem a sua presença nas ruas. Sem o seu trabalho não há futebol no Maracanã, festa de Ano Novo em Copacabana, liberdade de locomoção face à violência do Rio e prisão de bandidos que praticam crimes que miséria de espécie alguma pode justificar.

A segurança que auferimos do seu trabalho, não nos é oferecida, sabemos, sem que seus soldados e oficiais paguem um preço altíssimo. Enquanto estamos dormindo, muitos de vocês tombam em vielas, becos e ruas escuras da cidade. Não são poucos os que lutam contra o cansaço da noite, dentro de viaturas frágeis, em áreas reconhecidamente perigosas. Muitas vezes presas fáceis de criminosos, como aconteceu em julho de 2008, com os dois policiais que foram mortos na Fonte da Saudade. Naquele dia, eu mesmo fui para o local do crime, a fim de fixar uma faixa, com os seguintes dizeres: "Mataram aqui dois seres humanos que trabalhavam em condições desumanas".

Ninguém se arriscaria por tão pouco. O que ganham é incompatível com o valor social da sua profissão, os riscos inerentes ao seu exercício e angústias que pais, mães, esposas e filhos de policiais sofrem sempre que vêem seus queridos partirem sem a certeza de voltar. Não podemos nos esquecer dos que voltaram, mas feridos irreversivelmente, andando hoje em cadeira de roda, por terem vivido o sonho de livrar a cidade das ações de criminosos.

Pais, tanto no asfalto quanto morro, geram filhos irresponsavelmente, crianças crescem sem noção de certo e errado, jovens são mantidos fora da sala de aula por força do fracasso do Estado em oferecer-lhes educação atraente, garotos com demandas imensas no campo da auto-estima aprendem a se sentirem importantes por meio do narcotráfico e uso de arma de fogo, salários indecentes são oferecidos para gente que se sente explorada no mercado de trabalho, enquanto ao mesmo tempo uma cultura hedonista lhes acena com as ofertas do insaciável mercado de consumo; e espera-se que a polícia seja a solução para os crimes aos quais esse tipo de sociedade está exposta.

Gostaria de lembrar-lhes do apreço que todo cidadão consciente tem pelo trabalho policial. Sendo quem somos, é inimaginável a vida sem pessoas que se disponham a fazer o trabalho "sujo", "violento" e que "não requer estudo" que vocês realizam. A profissão de policial é digna.

Por tudo isso, enche-nos de tristeza ver uma instituição tão importante, cair em tamanho descrédito, perante os olhos de tantos, por causa dos erros cometidos por não poucos. O diretor do filme, José Padilha, não mentiu.

Em todas as profissões brasileiras há casos graves de corrupção: médicos que operam sem necessidade, juízes que vendem sentenças, agentes do poder público que desviam dinheiro do povo. Mas quando vocês erram -executando quem poderiam prender, usando a força desmedidamente, deixando-se marionetar pela classe política, passando fuzil para bandido, vendendo narcotraficante para facção rival, impossibilitando o trabalho pericial através da descaracterização do local do crime, parando automóvel na rua para extorquir ninharia-, o resultado final são vidas interrompidas por tão pouco, famílias destruídas pela dor da saudade e uma população amedrontada.

Não quero que a Polícia Militar acabe. Peço que vocês vivam à altura da sua vocação, uma vez que muito dependemos do exercício justo e honesto desse poder que lhes foi outorgado. Respondam às possíveis críticas, portanto, repensando seu papel, buscando mecanismos para melhor controle da ação policial, selecionando bem seus candidatos e apresentando à sociedade civil e poder público tudo aquilo de que carecem para cumprirem sua honrosa missão.

Antonio Carlos Costa
Presidente do Rio de Paz

Fonte: Repórter do Crime

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